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Politicamente Incorreta

(Imagem extraída do site: gartic.uol.com.br)

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O mendigo, que ronda o bairro da empresa onde trabalho, esteve pela vigésima vez no escritório vendendo o que chama de artesanato (uma latinha de refri vazia recolhida do lixo, diga-se de passagem, sem arte alguma).

Perguntei se aceitava comida e ele disse que sim. Fui até a copa e vi um pote de bolachas e, na fruteira, bananas fresquinhas. Pensei que, em seu lugar, eu iria preferir as frutas. Entreguei duas ao homem que recusou prontamente.

– Ah, não, banana de novo. Pensei que fosse bolacha.

Eu respondi que tinha o biscoito e pedi para esperar que eu fosse até a cozinha buscar. Voltei com alguns e, para minha surpresa, o homem voltou a recusar a oferta num tom grosseiro de voz.

– Não quero isso daí não, moça. Guarda pra você. Se tu não quer ajudar, não precisa me humilhar. Eu sou um homem desempregado, mas servi na saúde por 16 anos. Isso daí pra mim não serve. Se quiser doar, então faz tudo certinho. Olhe o que eu comprei com um real – falou apontando um pacote de pipoca Bilú dentro da sacola do supermercado.

Quando vi o que o homem considerava um alimento digno, confesso, senti-me ingênua por ter oferecido as frutas. Como pude esperar que aquele ser ignorante e alienado, parado em minha frente, tivesse alguma noção sobre alimentos nutritivos?

No final das contas eu, que sempre tive compaixão pelos fracos e oprimidos, vi-me mandando o homem embora, já que mesmo nessa situação não era capaz de ser humilde e aceitar o que lhe era dado de bom coração. Também pedi que não aparecesse mais.

E o homem saiu resmungando porta afora.

Deus sabe que não gosto de humilhar e revidar ofensas, ainda mais de pessoas em condições como essa. Mas uma frase que tempos atrás ouvi de uma professora, pelo menos nesse momento, fez todo sentido para mim.

– Carina, algumas pessoas simplesmente não merecem nossa educação. Não estão acostumadas a isso. Seja curta e grossa com elas e, então, entenderão o que deseja lhes dizer.

Tenho que dar a mão à palmatória. Ela tinha razão.

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O Mendigo

Numa tarde chuvosa e fria do mês de julho, eis que ouço soar o interfone do meu apartamento. Como já estou habituada às travessuras dos moleques da rua, fui até a janela para me certificar de que não estavam outra vez apertando em vão, e aleatoriamente, nas teclas do aparelho. Para minha surpresa não os vi correndo pela rua. Definitivamente não havia ninguém lá fora.

Mais alguns minutos ouvindo o interfone ecoar nos outros apartamentos e novamente soou perto de mim. Dessa vez pude ver da janela um pé descalço em frente ao portão. Não vi nada mais que isso, pois a pessoa estava escorada atrás da parede. Vez ou outra alguém toca o interfone do meu prédio pedindo alguma coisa. Normalmente pedem roupa ou leite para os filhos pequenos, mas desta vez a voz do outro lado me pediu um pão. Que por sinal poderia ser velho.

Preparei um sanduíche de presunto – o queijo estava acabando – e levei para o homem. Confesso que desci a escada satisfeita por cumprir a boa ação do dia.  Afinal estava sendo solidária, enquanto muita gente seria capaz de negar um prato de comida a um pobre faminto – e depois ir à igreja fazer preces pelos pobres.

O homem em frente ao meu portão não parecia bêbado, mas estava maltrapilho e sua figura dava pena. Aquele olhar de gratidão misturado com auto-humilhação fez com que eu me sentisse bem menos generosa. Ele não foi capaz de me olhar nos olhos, sua baixa estima não lhe permitiu. Mas antes de sair, pude ver a esfaimada mordida no pão e o sincero agradecimento:

– Muito obrigada querida, que Jesus te abençoe.

Pode ter sido uma frase pronta, mas prefiro acreditar que não. Muita gente perde a fé por muito menos do que ele. E não estou falando apenas da fé religiosa, mas também não pretendo entrar nesse assunto. O fato é que eu não perguntei o que estava fazendo ali ou o que lhe tinha acontecido para estar sozinho e vagando pelas ruas. Eu poderia ter ligado para o Programa de Orientação ao Migrante (POM) e pedido ajuda, eu poderia ter doado alguns minutos da minha atenção. Ao invés disso, eu lhe dei um sanduíche de presunto. Mesmo sabendo que ele precisava muito mais do que isso.

Depois disso os interfones pararam de tocar naquela tarde. Mas, mesmo assim, eu não fiquei em paz.


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Carina por ela mesma

Brasileira. Catarinense, mas quase gaúcha. Filha da dona Rozalina e do seu Alírio. Praiagrandense e acolhida pela cidade de Itajaí/SC. Neta da dona Floripe e do nono Carboni. Jornalista. Recém-casada. Esposa do Cleber. Idealista por natureza. Cantora de chuveiro. Ariana. Gremista. Ex-coroinha. Blogueira. Egressa do Bulcão Viana e da Univali. Tem especialização em Comunicação Empresarial, mas o rádio é a sua grande paixão.

Foi um desastre nas aulas práticas de educação física, mas tirou boas notas em redação durante o ginásio e o colegial. Desde o berço o seu lance é comunicação, dizem que aprendeu a tagarelar antes mesmo de dar os primeiros passos. Em 86 encantou fiéis com assovios durante as missas. Em 99 devorava três livros por semana e era fã de Sandy e Júnior. Locutora de Rádio entre 2002 e início de 2006. Cursou Letras na Unisul em 2005. Logo depois, ao sair de casa para morar 400 km distantes da terrinha natal, também viria a tornar-se escrava do lar.

Rói as unhas quando está nervosa. Gosta de café com leite, mas com mais café do que leite. Ansiedade é a sua marca. Tem saudades de casa, mas viaja pouco porque odeia congestionamentos. Gosta de dançar e de comer leite condensado de colher. Ouve Marisa Monte pra ficar em paz e faz faxina de vez em quando.

Como jornalista está ciente que hard news não é muito a sua praia. Tem carteira de habilitação, mas paga pra não precisar dirigir carro. Gosta de maquiagem e literatura. Adora contar histórias e receber comentários neste blog.

Essas são algumas impressões sobre si mesma. Sinta-se a vontade para ter as suas próprias e volte sempre que quiser.

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