Archive for the 'coração de estudante' Category

Não sabemos mais ser tristes

Vivemos uma euforia constante. Constante e compartilhada nas redes. Com toda essa felicidade sendo revelada a todo instante, há tempos não existem mais mistérios sobre ninguém. Basta uma rápida busca nas redes sociais para sabermos onde se mora, trabalha, estuda, quais atividades pratica, o que comeu no jantar ou até que roupa está usando hoje – no caso de também ser devoto de selfies.

Dedos viciados em felicidade correm pelas telas do celular revelando postagens de gente bonita, maquiada e bem sucedida. São famílias perfeitas, casais que se amam, amigos que se idolatram. Vidas interessantes, legendadas por palavras de motivação, superação, gratidão incessantes. Não há espaço para tristeza, não há espaço para a mediocridade, somente o extraordinário merece likes, visualizações, compartilhamentos, comentários de elogios.

Vivi uma adolescência onde ainda era aceitável ficar isolada em algum canto com aquela seleção de músicas para chorar as mágoas.  Era ali que refletia e esgotava qualquer dor. E de algum modo, essa exploração de sentimentos trazia melhora, evolução, um pingo de autoconhecimento. Mas a introspecção vem assumindo ares de estranheza, ultimamente.

Entendo que a juventude ainda seja um momento de imensas descobertas. Onde se aprende a lidar com a rejeição, desejos não atendidos, as primeiras decisões importantes sobre o futuro. Então por que os conflitos vividos hoje parecem tão exagerados e desnecessários?

Diante desta ditadura da felicidade que estamos vivendo, como nós, adultos, estamos lidando com nossas frustrações?  Como estamos encarando este mundo onde a vida de todos parece ser tão perfeita? Para onde estamos canalizando nossa tristeza natural? Estaríamos sufocando nossos sentimentos?

O turbilhão de informações sobre tantas pessoas, não raro, nos fazem crer que sabemos muito. De fato até sabemos muitas coisas, mas apenas do que é aceitável de se mostrar. O que há por trás do dispositivo de cada câmera? O que mora nos bastidores do não revelado? Estaremos interessados em saber? Tenho a sensação de que estamos preferindo ficar no raso. Até que ponto estaríamos dispostos a nos comprometer, compartilhar e dividir o não publicável?

Seguimos guiados pelos likes, na ilusão de que as curtidas sejam a recompensa que buscamos, quase tão loucamente quanto o utópico e constante estado de felicidade. Quase tão desesperadamente quanto perseguimos o reconhecimento alheio. Quase tão estranhamente quanto lutamos para camuflar nossa aflição, já que não sabemos mais ser tristes.

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Você e eu no mesmo barco

A coluna desta semana está atrasada pelo mesmo motivo que as minhas unhas ainda estão por fazer. Ainda não organizei a mala para a viagem de final de semana e o cachorro pula na janela, com a bolinha na boca, implorando atenção enquanto escrevo este texto. O tanque entrou na reserva e ainda não passei no posto de combustível. Meu armário vai esperar mais uma semana para ser organizado e ainda bem que meu marido aprendeu a cuidar das próprias roupas (e até das minhas!). Valeu sogra, por educá-lo assim.
Gazeei a academia hoje para tentar colocar as tarefas em dia. Sento em frente ao computador para escrever e lembro que não ponho comida no estômago há umas oito horas. Não estava sentindo fome até lembrar disso. Resultado: caio de boca no que sobrou do pote de sorvete guardado no congelador. A TPM me fez desejá-lo a tarde inteira. Permito-me o doce para equilibrar o nível de serotonina e, quem sabe, refrescar as ideias. Tem dias que nossa cabeça ferve.
São tantas decisões a tomar, tantas pessoas com quem se relacionar, tantos atalhosa tomar no trânsito, tanta paciência ao telefone, tantos e-mails para responder, tantos projetos para iniciar, tantos relatórios para analisar, sem falar na consulta e os exames médicos que você nunca marca. E que quando marca, ainda esquece ou remarca por conta de um imprevisto. E acabo de lembrar que tem uma semana que não ligo para minha mãe e para lá de um mês que não levo o cachorro para passear. E agora o cachorro também late porque já está com fome.
Entre ontem e hoje pensei em iniciar essa coluna umas três vezes. Fracassei. Entre um compromisso e o próximo, não tive nenhuma inspiração. Cheguei em casa e, durante o banho, fiquei lembrando de como usamos o tempo como bengala quando nos falta assunto. E aí pensei que falar da falta dele, hoje em dia, faz muito mais sentido.E aqui estou, na maior franqueza, compartilhando com o leitor minha corrida contrao relógio. Na esperança de que ele se comova e, quem, sabe, comente abaixo o quanto também se identifica comigo.
E aí, tamo junto?

(texto publicado na coluna Reflexões da Carina no site: http://www.reportercamboriu.com.br no dia 20 de novembro de 2015)

Existo, logo posto

Não temos mais interesse na vida real. Iniciamos um assunto, seja ele trivial ou realmente importante e, dez segundos depois, o indivíduo já dispersou da conversa. Da noite para o dia nos vimos feito bobos falando para o nada. Faça o teste. Experimente contar uma história com mais de 140 caracteres. Pare na metade do assunto e espere pra ver se alguém percebe que ela ficou pela metade. Verás que raramente alguém se manifesta.

Viver tornou-se menor do que uma postagem em rede social. Existo, logo, posto. Sem perceber direito como, nem quando, nós incorporamos este mundo virtual onde só existimos se postamos algo. E para não sermos esquecidos e completamente ignorados da vida social, nos rendemos a essa extrema exposição de nosso cotidiano e de nossos sentimentos. Isso porque nos vimos sem ter com quem compartilhar o dia a dia.

Imagem extraída da página: http://ninhodemafagafas.com/

Imagem extraída da página: http://ninhodemafagafas.com/

Nunca tivemos tantas pessoas sabendo de nós pela web, nem nunca nos sentimos tão solitários no mundo. Nossa timeline parece uma competição de demonstrações de amor, felicidade, amizade e devoção. Mas pouca parte disso se manifesta no mundo real. Não me admira o índice de suicídios que vimos por aí. Especialistas no assunto dizem que um suicida dá pelos menos 16 sinais de que está passando por graves dificuldades emocionais. Mas quem é que enxerga?

Ainda que um assunto inteligente na vida real não tenha a mesma audiência que uma bobagem que você posta em rede, nosso valor é medido na quantidade de likes e compartilhamentos que recebemos na web. Assim somos “vistos” no mundo.  E no dia seguinte talvez alguém comente sobre a postagem do dia anterior e você consiga estender o assunto até uns 200 caracteres – não se anime muito, não está fácil pra ninguém competir com um celular conectado a um bom 3G.

Se não participamos ativamente de nenhum grupo no WhatsApp, não temos seguidores no Instagram ou no Facebook, então, nos tornamos ermitões desinformados e solitários. Este consumo compulsivo de novas mídias é assustador, mas compreensível. Buscamos aqui, na palma de nossa mão, a amizade que se perdeu, quem nos ouça, nos compreenda, se interesse pelo que temos a dizer, alguém que reconheça nosso valor no mundo, que nos dê conselhos sobre a vida, divida suas angústias, nos diga o quanto somos queridos em nosso aniversário, repare na nossa roupa nova, na unha bem feita ou no corte de cabelo.

Amizade virtual, felicidade virtual, vida virtual. Vivemos para ter o que mostrar na rede sobre nossa existência porque, pra grande parte de nós, viver tornou-se imensamente menor do que postar. Enquanto na vida real é raro encontrar uma agenda disponível para um chope, na virtual sempre terá alguém conectado pra curtir aquilo que postamos. E a menos que se pague terapia para ter alguém que nos ouça, a internet parece ser o que nos resta.

Será que isso tem volta?

Ps: Aceitando convite pra tomar chope.

#VidaVirtual #DiárioDeCarina

Afinidade

ImagemTem pessoas que a gente gosta de cara. Outras nos conquistam com o tempo. E tem aquelas que a gente tolera em nome da moral e dos bons costumes.

Não é estranho esse lance de afinidade? Como é possível você conviver uma vida inteira com alguém sem nunca ter nenhuma queixa e, bastar apenas dez minutos com outra pessoa, para ela te deixar muito aborrecido?

É claro que também existem aquelas suas qualidades que atraem novos amigos e, ao mesmo tempo, irritam outras pessoas ao seu redor. É fácil perceber. O seu perfeccionismo pode ajudar no seu ofício de trabalho, mas ser um problema na sua vida social. Todos nós temos um lado assim, que agrada e também desagrada.

Existe aquela teoria de que odiamos alguém porque identificamos nela algo que gostaríamos de ser ou porque enxergamos nela algo que não admitimos em nós mesmos.

Será?

Eu, particularmente, não suporto atitudes egoístas. A falta de senso coletivo dos outros me incomoda muito. Vai ver então que é porque me preocupo demais com as pessoas ao meu redor e, por isso, fico desestabilizada quando vejo alguém focado somente no próprio umbigo.

É. Vai ver é isso mesmo.

Mas e você, o que te deixa possesso?

Imagem original no site: http://sppsic.wordpress.com/2011/01/

Mudanças pelo caminho

A mudança é algo inevitável. De repente aquilo que parecia ser o ideal passa a não servir mais. Aquelas pessoas que a gente admirava passam a ser simplesmente humanas. As músicas favoritas tocam despercebidas, os bons livros são substituídos por outros mais interessantes. Tudo perde o sentido. E você já não se reconhece mais.

É quando tem a chance de reencontrar tudo aquilo que te fez feliz. E aí percebe não ser bem daquele jeito que você reviveu milhares de vezes em pensamento. E descobre que a memória é engraçada, seletiva e, por vezes, fantasiosa. Guarda só os momentos bons e os enfeita para que pareçam bem melhores do que foram. E você passou tanto tempo se alimentando de uma falsa nostalgia. Esqueça, pois você mudou. Mudou pra valer.

No final vai se pegar rindo das roupas cafonas que vestiu, das músicas bregas das quais gostou e das fotografias antigas. Vai duvidar dos artistas superficiais que admirou e dos amores que ficaram no passado. Debochará de si mesmo e dos ideais que tinha. Perceberá que não vai conseguir mudar o mundo e nem as pessoas ao seu redor. E na pior das hipóteses terá tornado-se exatamente aquilo que mais desprezava.

É provável que tenha chegado o momento decisivo. Aquele em que precisa urgentemente voltar a sonhar. Voltar a mirar lá no alto, devolver sentido à vida. Mudanças continuarão existindo, para o bem e para o mal. Você poderá ignorá-las ou não, mas se tiver um sonho elas terão valido a pena.

Enfim, jornalista!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Talvez você já tenho lido parte do texto abaixo. Foi publicado no final de 2008, por mim mesma. Há duas semanas da minha formatura, será que me permitem um autoplágio?

Longe de casa, a mais de uma semana 

Eu não estava acostumada a ter de esperar o sinal fechar, para só então atravessar a rua. Eu me sentia tão pequena diante de todos os prédios, diante do movimento dos carros na ruas, de tantos rostos estranhos andando pelas calçadas.

Nada me era familiar por aqui. Eu não conhecia nenhum daqueles bairros descritos nos destinatários dos ônibus. Bambuzal. Costa Cavalcante. Cordeiros. Pedra de Amolar – onde será que fica isso?!?

Na despedida do meu último programa na rádio, sucumbi ao choro. Na saída de casa, dei um beijo no irmãozinho que ficou dormindo. A mãe ficou choramingando baixinho no portão. O namorado ficou encostado ao muro. Ele estava calado. O pai deu as recomendações. Pediu para telefonar diariamente. E para que não hesitasse em voltar para casa, caso as coisas não saíssem do jeito que  eu esperava. 

Na mochila vieram somente peças de verão. O taxista sorriu quando viu o bicho de pelúcia junto da pequena bagagem:

– Ela trouxe até o “ursinho” com ela.

 Aquele comentário, de repente, fez eu me sentir tão ridiculamente infantil. Mas a verdade é que o homem não sabia que o “ursinho”, que na verdade tratava-se de um cachorrinho,  tinha sido presente do namorado no último natal. Ele também não reparou que o bichinho trazia um perfume especial. E sequer imaginou que dormi sentindo aquele cheirinho enquanto  ele durou. 

Como meu pai já alertara, as coisas não saíram como eu esperava. Foram muito melhores e, ao mesmo tempo, muito piores. Minha vida deu um giro de 180 graus. Num lugar de iguais, foi bem difícil ser autêntica, ser o que sempre pude ser. Vi meus modos provincianos serem condenados. Mas foi aqui que eu conheci um mundo novo. 

Aqui me tornei mulher. Aqui ‘aprendi’ a cozinhar e a cuidar de mim mesma; Mentir que estava bem e, às vezes, até fingir que estava mal. Ganhei peso. Perdi cabelo. Ganhei amigos. Arranjei – quem diria? – até inimigos. Morei só. Dividi apartamento. Chorei de tristreza. Me apaixonei. Tomei o primeiro porre. Conheci lugares lindos. Peguei praia, balada e até enchente – quem poderia acreditar que viria da Terrra das Enxurradas para encontrar enchente justo aqui? 

Passados três anos que estou longe de casa (agora quatro e meio), é estranho ver como o tempo passou depressa. Os prédios parecem menores agora, a cidade parece ter diminuído de tamanho. Os amigos se multiplicaram. A saudade também. Sim, aqui eu vivi verdadeiras Emoções. E é por essa e tantas outras razões que não me canso de cantar a música de Roberto e Erasmo Carlos (a mesma que irá tocar na hora em que for ao encontro do meu canudo): 

"(...)
 São tantos momentos 
Que eu não me esqueci
Detalhes de uma vida
Histórias que eu contei aqui...
 
Amigos eu ganhei
Saudades eu senti partindo
E as vezes eu deixei 
Você me ver chorar sorrindo...
 
Sei tudo o que o amor
É capaz de me dar 
Eu sei já sofri
Mas não deixo de amar
 
Se chorei ou se sofri
O importante é que emoções eu vivi" 

Nesta fase de conclusão de etapas, surge certa nostalgia. As inevitáveis  retrospectivas a cerca dos acertos e tropeços do caminho. Um misto de cobrança, por ainda não ter o emprego que eu gostaria, e orgulho por ter vencido a luta. Não preciso lembrar a ninguém o quanto foi dolorosa em alguns momentos e também gratificante, em tantos outros. Só peço que não me perguntem como vai ser agora. Não sei de nada. Quando aqui cheguei, pensava que aqui não ficaria. Agora que seria o momento oportuno de partir, bom… Tenho fortes razões para querer ficar. E com isso deposito toda minha esperança na máxima de que “tudo tem seu próprio tempo”.

Quem sou eu para querer duvidar de sua generosidade, depois de todas as experiências que eu relatei aqui?

 

Dezoito meses depois de um sim

Foi tão absurdamente bonitinho quando ele pronunciou o “Quer namorar comigo?”, que até me deixou sem fala ali no portão do meu prédio. Logo eu que nunca fico sem fala. Naquele dia eu fiquei. E não fui capaz de dizer que sim, nem que não. Não sabia se estava preparada pra ser tão feliz, tão amada, tão correspondida.

Foi aquele cara que tanto queriam me apresentar e eu não botava fé. Foi justamente aquele que eu achava novo demais para mim. Debochado demais para mim. Virginiano demais, para uma ariana tão impulsiva. Detalhista demais, para uma pessoa ansiosa e por vezes até impaciente demais.

Eu ainda lembro da nossa primeira sessão de cinema. Fiquei pensando se era cedo demais para andarmos pelo shopping de mão ou se ainda devia fingir que era mais uma amizade colorida e despretensiosa. Foi quando ele tomou a iniciativa e procurou a minha mão para segurar. E eu gostei demais daquilo.  Foi a primeira vez em que eu me senti a namorada dele, mesmo não sendo.

Hoje não sei como seriam os domingos sem tentar fugir das suas mordidas na minha buchecha. Não sei como seria ficar ao lado de alguém que não discordasse de mim ou então que não reclamasse de azia e dor no joelho o tempo todo. Não sei para quem eu falaria mal dos clientes chatos do meu trabalho. Não sei quem poderia me convidar pra ir à missa todos os finais de semana ou para quem eu teria tanto gosto de cozinhar.

Quando a gente encontra alguém assim, compreende o que é amar de verdade. Amar até as coisas mais bobas e os defeitinhos mais xaropes. E também acaba querendo ser alguém melhor pra fazer quem a gente gosta ainda mais feliz. E tudo o que eu faço hoje não é mais pensando só em mim, é pensando nele também. No amor que eu quero ter pra vida toda.


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Carina por ela mesma

Brasileira. Catarinense, mas quase gaúcha. Filha da dona Rozalina e do seu Alírio. Praiagrandense e acolhida pela cidade de Itajaí/SC. Neta da dona Floripe e do nono Carboni. Jornalista. Recém-casada. Esposa do Cleber. Idealista por natureza. Cantora de chuveiro. Ariana. Gremista. Ex-coroinha. Blogueira. Egressa do Bulcão Viana e da Univali. Tem especialização em Comunicação Empresarial, mas o rádio é a sua grande paixão.

Foi um desastre nas aulas práticas de educação física, mas tirou boas notas em redação durante o ginásio e o colegial. Desde o berço o seu lance é comunicação, dizem que aprendeu a tagarelar antes mesmo de dar os primeiros passos. Em 86 encantou fiéis com assovios durante as missas. Em 99 devorava três livros por semana e era fã de Sandy e Júnior. Locutora de Rádio entre 2002 e início de 2006. Cursou Letras na Unisul em 2005. Logo depois, ao sair de casa para morar 400 km distantes da terrinha natal, também viria a tornar-se escrava do lar.

Rói as unhas quando está nervosa. Gosta de café com leite, mas com mais café do que leite. Ansiedade é a sua marca. Tem saudades de casa, mas viaja pouco porque odeia congestionamentos. Gosta de dançar e de comer leite condensado de colher. Ouve Marisa Monte pra ficar em paz e faz faxina de vez em quando.

Como jornalista está ciente que hard news não é muito a sua praia. Tem carteira de habilitação, mas paga pra não precisar dirigir carro. Gosta de maquiagem e literatura. Adora contar histórias e receber comentários neste blog.

Essas são algumas impressões sobre si mesma. Sinta-se a vontade para ter as suas próprias e volte sempre que quiser.

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