10 anos depois

Era uma terça feira de carnaval. 28 de fevereiro de 2006. Acordei cedo e com as malas prontas dei adeus a minha casa, minha rua e a cidade que me viu nascer e crescer. Deixei para trás família, amigos, namorado, meu trabalho na rádio da pequena cidade, minha ligação com a música, adormecida depois dali.

Entrei num caminhão com uma pequena mochila, trezentos reais e um coração cheio de sonhos e expectativas. Dali para frente eu jamais seria a mesma. E embora soubesse que havia chegado a hora de sair do casulo, parti com o coração apertado aquele dia. Lutei contra o impulso de desistir até o último segundo. O caminhão se movendo, o coração sangrando e eu lutando pelo incerto.

Lembro de tudo que me disseram na despedida, de cada palavra e dos rostos tristes de cada um. Das lágrimas da mãe, das recomendações do pai, do beijo no irmão que, na inocência dos seus cinco aninhos, ficou dormindo e não me viu partir. Com o cordão umbilical cortado eu segui rumo ao desconhecido.

Andar pelas ruas e avenidas da nova cidade e não precisar cumprimentar as pessoas me causava tanta estranheza. Ninguém fazia ideia de quem eu era ou de onde eu vinha. Apenas uma entre centenas de universitárias que, a cada semestre, desembarcam na cidade com mais ou menos dinheiro do que eu, com sonhos e ambições maiores ou menores do que as minhas, mas sem absolutamente nada que diferencie umas das outras.

Também conheci a liberdade do anonimato e gostei dela. Finalmente havia entendido que a opinião do vizinho seria apenas a opinião do vizinho e que nunca mais precisaria me atormentar por conta disso. A hora que eu chegaria ou sairia da casa, os amigos que eu faria, as roupas que eu usaria, tudo seria apenas da minha conta. E era bom ser livre. Era bom não precisar servir de exemplo pra ninguém, não ter um modelo de perfeição para seguir.

Itajaí me recebeu bem. Colegas viraram amigas. Legal virou “baita massa”. Baile virou “balada”. Namorado virou ex. Domingo virou solidão. Telefone virou essencial e feriado ganhou sentido. A realidade do jornalismo mostrou-se diferente do esperado (e do que a maioria das pessoas ainda imagina ser), sofri por isso, depois relaxei. Veio formatura. Veio casamento. Enxergo-me inserida na cultura daqui a ponto de quase ninguém mais me ouvir dizer “poRta” e de termos como “nega” e “nego” serem parte do meu vocabulário como se eu também fosse filha daqui.

É claro que eu me chateei com várias coisas. Fui magoada. Superei. Cresci. Amadureci. E me vejo mais fortalecida do que antes. Ainda tenho muito daquela menina de dezenove anos. Permanece uma dose daquela inocência que, por vezes, ainda me protege da feiura do mundo. Ainda espero o melhor das pessoas, embora a surpresa do pior já não me cause tanto estrago.

Dez anos depois eu ainda deixo a pequena cidade com o coração apertado. Cada partida é como se tivesse novamente escolhendo ter outra vida. Novamente escolhendo sentir saudades da minha família, novamente abrindo mão de ver meu irmão crescer, novamente vendo minha mãe triste por minha partida. Mas como cantou Elis Regina “no presente a mente, o corpo é diferente. E o passado é uma roupa que não nos serve mais” .

 

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2 Responses to “10 anos depois”


  1. 1 Nelson Antonio 29/02/2016 às 22:35

    Sempre que leio você encontro a mesma Carina: caleidoscópica, guerreira , camaleoa e inconformada com a mesmice! Mutante ! Só é permanente o que se renova todos os dias ( Tagore).drnelsonantonio.blogspot.com

  2. 2 Gezaela! 24/11/2016 às 03:47

    Cary, amei sua biografia. Bjooo!


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Carina por ela mesma

Brasileira. Catarinense, mas quase gaúcha. Filha da dona Rozalina e do seu Alírio. Praiagrandense e acolhida pela cidade de Itajaí/SC. Neta da dona Floripe e do nono Carboni. Jornalista. Recém-casada. Esposa do Cleber. Idealista por natureza. Cantora de chuveiro. Ariana. Gremista. Ex-coroinha. Blogueira. Egressa do Bulcão Viana e da Univali. Tem especialização em Comunicação Empresarial, mas o rádio é a sua grande paixão.

Foi um desastre nas aulas práticas de educação física, mas tirou boas notas em redação durante o ginásio e o colegial. Desde o berço o seu lance é comunicação, dizem que aprendeu a tagarelar antes mesmo de dar os primeiros passos. Em 86 encantou fiéis com assovios durante as missas. Em 99 devorava três livros por semana e era fã de Sandy e Júnior. Locutora de Rádio entre 2002 e início de 2006. Cursou Letras na Unisul em 2005. Logo depois, ao sair de casa para morar 400 km distantes da terrinha natal, também viria a tornar-se escrava do lar.

Rói as unhas quando está nervosa. Gosta de café com leite, mas com mais café do que leite. Ansiedade é a sua marca. Tem saudades de casa, mas viaja pouco porque odeia congestionamentos. Gosta de dançar e de comer leite condensado de colher. Ouve Marisa Monte pra ficar em paz e faz faxina de vez em quando.

Como jornalista está ciente que hard news não é muito a sua praia. Tem carteira de habilitação, mas paga pra não precisar dirigir carro. Gosta de maquiagem e literatura. Adora contar histórias e receber comentários neste blog.

Essas são algumas impressões sobre si mesma. Sinta-se a vontade para ter as suas próprias e volte sempre que quiser.

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