O Mendigo

Numa tarde chuvosa e fria do mês de julho, eis que ouço soar o interfone do meu apartamento. Como já estou habituada às travessuras dos moleques da rua, fui até a janela para me certificar de que não estavam outra vez apertando em vão, e aleatoriamente, nas teclas do aparelho. Para minha surpresa não os vi correndo pela rua. Definitivamente não havia ninguém lá fora.

Mais alguns minutos ouvindo o interfone ecoar nos outros apartamentos e novamente soou perto de mim. Dessa vez pude ver da janela um pé descalço em frente ao portão. Não vi nada mais que isso, pois a pessoa estava escorada atrás da parede. Vez ou outra alguém toca o interfone do meu prédio pedindo alguma coisa. Normalmente pedem roupa ou leite para os filhos pequenos, mas desta vez a voz do outro lado me pediu um pão. Que por sinal poderia ser velho.

Preparei um sanduíche de presunto – o queijo estava acabando – e levei para o homem. Confesso que desci a escada satisfeita por cumprir a boa ação do dia.  Afinal estava sendo solidária, enquanto muita gente seria capaz de negar um prato de comida a um pobre faminto – e depois ir à igreja fazer preces pelos pobres.

O homem em frente ao meu portão não parecia bêbado, mas estava maltrapilho e sua figura dava pena. Aquele olhar de gratidão misturado com auto-humilhação fez com que eu me sentisse bem menos generosa. Ele não foi capaz de me olhar nos olhos, sua baixa estima não lhe permitiu. Mas antes de sair, pude ver a esfaimada mordida no pão e o sincero agradecimento:

– Muito obrigada querida, que Jesus te abençoe.

Pode ter sido uma frase pronta, mas prefiro acreditar que não. Muita gente perde a fé por muito menos do que ele. E não estou falando apenas da fé religiosa, mas também não pretendo entrar nesse assunto. O fato é que eu não perguntei o que estava fazendo ali ou o que lhe tinha acontecido para estar sozinho e vagando pelas ruas. Eu poderia ter ligado para o Programa de Orientação ao Migrante (POM) e pedido ajuda, eu poderia ter doado alguns minutos da minha atenção. Ao invés disso, eu lhe dei um sanduíche de presunto. Mesmo sabendo que ele precisava muito mais do que isso.

Depois disso os interfones pararam de tocar naquela tarde. Mas, mesmo assim, eu não fiquei em paz.

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4 Responses to “O Mendigo”


  1. 1 Cleber 24/07/2009 às 22:34

    Você lembra do que ouvimos na missa nesta final de semana?
    “Precisamos ser menos individualistas”.
    Você pode não ter oferecido muito mais à ele, mas atendeu “de coração” seu único pedido.
    Veja quantos interfones ele tocou, e não deram a mínima.
    Também não acho que o que lhe disse foi uma frase pronta.
    Eu acredito em sinais.

    • 2 Carina Carboni 25/07/2009 às 02:03

      Foi justamente por pensar no sermão, que ouvimos no domingo, que refleti melhor sobre o fato. Dar apenas um sanduíche não resolveu nada. Até remediou a fome, provisoriamente, mas minha atitude foi individualista mesmo assim. Dei um sanduíche e voltei para minha vidinha e meus problemas. E só.

      O que me consola é pensar que tudo isso me trouxe alguma reflexão. Serviu para entender que, daqui pra fente, antes de julgar alguém por “mesquinho” ou “egoísta” tenho de pensar até que ponto estou fazendo a minha parte.

      A verdade é que estamos contaminados até a alma pelos príncipios do capitalismo selvagem. É uma pena.

  2. 3 Benedicta Izabel Rosa 03/07/2012 às 22:35

    Carina!

    Hoje, antes de me levantar, cama quentinha, lá na cozinha um aroma irresistível de café com leite, mesa posta. Banho quente, toalhas secas, roupas limpas e perfumadas. Tudo perfeito! Errado. Uma inquietação me invade. O pensamento alcança os desvalidos. Pobres, forasteiros, mendigos, abandonados… E daí? Penso, quanta demagogia, o que tenho de fato feito para amenizar essa dor do mundo? Nada, Nada. Sinto-me apenas extremamente incomodada.

    Izza Rose.

  3. 4 Carina Carboni 04/07/2012 às 02:49

    Entendo você, Izza. Eu não sei quando acontece, mas um dia a gente simplesmente desiste de tentar mudar o mundo. Lamento que seja assim, mas o seu sentimento é uma prova de que dentro de você ainda existe um pouco dessa vontade. Pode não ser o suficiente, mas mostra que você se importa e se puder fazer a diferença para alguém, acho que já valeu a pena, né?


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Carina por ela mesma

Brasileira. Catarinense. Filha da dona Rozalina e do seu Alírio. Natural de Praia Grande (SC), mas acolhida pela cidade de Itajaí (SC) há mais de doze anos. Jornalista. Esposa do Cleberson há cinco anos. Idealista por natureza. Estudante de teatro. Cantora de chuveiro. Ariana com ascendente em gêmeos. Gremista. Ex-coroinha. Estudou no Bulcão Viana e na Univali. Tem especialização em Comunicação Empresarial, mas o rádio é sua grande paixão.

Foi um desastre nas aulas práticas de educação física, mas tirou boas notas em redação durante o ginásio e o colegial. Desde o berço o seu lance é comunicação, dizem que aprendeu a tagarelar antes mesmo de dar os primeiros passos. Em 86 encantou fiéis com assovios durante as missas. Em 99 devorava três livros por semana e era fã de Sandy e Júnior. Também foi estudante de Letras.

Deixou a cidade natal aos 19. Morou sozinha e dividiu apê com as amigas. Já comeu muito macarrão instantâneo, mas hoje evita sódio e inclui três cores de salada no prato.

Não tem filhos. Os sobrinhos/afilhados Victor e Luísa e as labradoras, Hanna e Sophia, são os seus xodós.

Dirige com cautela sobre duas rodas. Gosta de maquiagem e literatura. Rói as unhas quando está ansiosa. Gosta de café preto, mas com pouco açúcar. Curte viajar, dançar, cozinhar e cuidar da saúde. Ouve Marisa Monte para ficar em paz e gosta de ir em shows de rock.

Adora contar histórias e receber comentários neste blog.

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