Textos categorizados 'Vivências'

Livre-se dos rótulos

Sempre achei estranho que as pessoas pudessem não gostar de alguém antes de saber direito de quem se trata. Antes mesmo de desfrutar da companhia do sujeito,  antes de saber se tem histórias engraçadas para compartilhar.  Antes de saber como canta, dança e se sabe ou não fazer piruetas. Antes de saber de onde veio e quais dificuldades e felicidades encontrou pelo caminho. Antes mesmo de conhecer o lado bom que ele certamente tem.

É como se nunca mais quisesse tomar chocolate quente por ter sapecado a língua da primeira vez que experimentou. Como se não andasse mais de bicicleta só porque caiu e ralou o joelho quando criança. Como se não beijasse mais na boca porque o primeiro beijo foi ruim. Como se não bebesse mais vinho porque não gostou da dor de cabeça do pós porre. 

Pessoas taxativas são assim, nunca dão chance. Acho isso uma pena, pessoas rotuladas sofrem.  Mas quem rotula perde mais, nunca fica sabendo o que poderia encontrar após a primeira impressão. Uma grande amizade? Um grande amor? Um grande sorriso? Uma grande dor? Uma grande saudade? Quem sabe? Mas, uma grande surpresa certamente haveria de achar.

O bem que só ele me faz

carvao

É ele quem atura meus ataques de tagarelice e crises-existenciais-tepeêmicas. É ele que me salva dos cálculos matemáticos. É quem compreende minha melancolia e quem me diz pra confiar sempre que eu penso em desistir. É só ele quem sente falta da pimenta na minha comida. Só ele quem ri do meu jeito atrapalhado de fazer as coisas e quem briga comigo toda vez que percebe o roído das minhas unhas.

Ele me trouxe a paz de um abraço amigo. Ele me fez esquecer a solidão angustiante dos finais de tarde de domingo. Ele me provou que ainda existem caras bacanas e legitimamente avessos às ostentações e futilidades. Ele me mostrou o quanto é bom adormecer com a cabeça no ombro de quem a gente ama. Ele me fez acreditar novamente no amor. _______________________________________________________

Obrigada, meu bem,  por todas as coisas boas que você trouxe para minha vida. Nosso primeiro ano de namoro foi pra lá de especial.

O Mendigo

Numa tarde chuvosa e fria do mês de julho, eis que ouço soar o interfone do meu apartamento. Como já estou habituada às travessuras dos moleques da rua, fui até a janela para me certificar de que não estavam outra vez apertando em vão, e aleatoriamente, nas teclas do aparelho. Para minha surpresa não os vi correndo pela rua. Definitivamente não havia ninguém lá fora.

Mais alguns minutos ouvindo o interfone ecoar nos outros apartamentos e novamente soou perto de mim. Dessa vez pude ver da janela um pé descalço em frente ao portão. Não vi nada mais que isso, pois a pessoa estava escorada atrás da parede. Vez ou outra alguém toca o interfone do meu prédio pedindo alguma coisa. Normalmente pedem roupa ou leite para os filhos pequenos, mas desta vez a voz do outro lado me pediu um pão. Que por sinal poderia ser velho.

Preparei um sanduíche de presunto – o queijo estava acabando – e levei para o homem. Confesso que desci a escada satisfeita por cumprir a boa ação do dia.  Afinal estava sendo solidária, enquanto muita gente seria capaz de negar um prato de comida a um pobre faminto – e depois ir à igreja fazer preces pelos pobres.

O homem em frente ao meu portão não parecia bêbado, mas estava maltrapilho e sua figura dava pena. Aquele olhar de gratidão misturado com auto-humilhação fez com que eu me sentisse bem menos generosa. Ele não foi capaz de me olhar nos olhos, sua baixa estima não lhe permitiu. Mas antes de sair, pude ver a esfaimada mordida no pão e o sincero agradecimento:

- Muito obrigada querida, que Jesus te abençoe.

Pode ter sido uma frase pronta, mas prefiro acreditar que não. Muita gente perde a fé por muito menos do que ele. E não estou falando apenas da fé religiosa, mas também não pretendo entrar nesse assunto. O fato é que eu não perguntei o que estava fazendo ali ou o que lhe tinha acontecido para estar sozinho e vagando pelas ruas. Eu poderia ter ligado para o Programa de Orientação ao Migrante (POM) e pedido ajuda, eu poderia ter doado alguns minutos da minha atenção. Ao invés disso, eu lhe dei um sanduíche de presunto. Mesmo sabendo que ele precisava muito mais do que isso.

Depois disso os interfones pararam de tocar naquela tarde. Mas, mesmo assim, eu não fiquei em paz.

Desabafo de uma Operadora de Telemarketing

A operadora de telemarketing acorda todos os dias sabendo que terá de falar com pessoas mal educadas. Ela terá de ser gentil, mesmo 14quando estiver na TPM. Ela também terá de fingir-se de sonsa, mesmo quando subestimarem sua inteligência.

Ouvirá ironias e grosserias durante aquele dia, foi treinada para deixar o cliente xingá-la até o final, mas não possui o direito de revidar. Responder, rodar a baiana, chamar a mocreia (agora sem acento) do outro lado de vaca? Nunca, pecado mortal! E a grossa que está do outro lado da linha se aproveitará desse fato para enchê-la de lixo a vontade.

Após agradecer pela ligação e pelo monte de desaforos, ops!, quer dizer, pelas sugestões… Talvez ela chore. Mas não pode demorar muito, porque tem pessoas na fila para atender. Então ela engole mais esse sapo e parte logo para a próxima ligação. Afinal o aquecimento global, a fome na África, os atentados terroristas, a morte de Michael Jackson… tudo, tudo mesmo é culpa da operadora de telemarketing.

Ela responderá a todas as perguntas estúpidas que receber pelo telefone sem poder rir. No máximo mostrará ao colega, sentado na P.A ao lado, a quantidade absurda de erros de português contidas nos e-mails que chegaram à sua caixa de entrada – do serviço fale conosco.

 Talvez a moça possa rir e refletir sobre os assassinatos da língua portuguesa mais tarde, durante o intervalo de 10 minutos. Mas só depois de fazer xixi, pois atendeu cinco ligações seguidas sentindo sua bexiga latejar.

Quando finalmente chegar em casa e tiver um tempo para descansar e ver um pouco de TV com a família, encontrará uma crônica debochando do seu trabalho, generalizando sua classe como profissionais incompetentes. Na sua caixa de e-mails pessoais também receberá diversas piadas e vídeos de operadoras lixando as unhas durante os atendimentos, abusando de gerúndios na linguagem e zombando dos clientes bonzinhos e tão educados.

Ela desliga a televisão e vai dormir. Melhor não se aborrecer mais, pois é uma universitária e ainda precisa deste salário para pagar o aluguel.

Mulher Moderna

mundonas costasDeve ter um jeito de atravessar na faixa de pedestre sem correr o risco de ser atropelada;

Deve ter um jeito da gente entupir-se de guloseimas e não sentir-se culpada por isso;

Deve ter um jeito de dormir no braço do namorado sem doer o ombro;

Deve ter um jeito mais barato de exterminar a celulite e a gordura localizada;

Deve ter um jeito da gente sentir-se menos atraída pelo brilho das vitrines;

Deve ter um jeito de poder agradar o mundo sem desagradar a si própria;

Deve ter um jeito da gente gastar mais tempo com livros do que com a internet;

Deve ter um jeito de ficar perto de quem se gosta, sem ter de viajar durante horas;

Deve ter um jeito de poder trabalhar, estudar, amar, cuidar da casa e da gente e ainda ser linda e feliz.

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PS: Se alguém souber a receita para resolver algum destes enigmas contemporâneos, por favor, não deixe de me informar.

Inferno Astral!!!

get_imagem_conteudoEm toda minha vida não me lembro de um tempo em que me sentisse tão desmotivada quanto agora. Tirando meu namorado tudo-de-bom, posso dizer que as coisas estão um verdadeiro caos por aqui.

Pra ajudar estou doente, sofrendo de uma intoxicação alimentar que me deixou em jejum o dia inteiro. E eu que pensava que isso fosse coisa de gente fresca.

Depois de ficar doente, ter de largar o estágio da tv na semana passada, levar um bolo da minha própria mãezinha no domingo, ainda estou ficando mais velha esta semana.

Estou em crise. Deve ser a tal joça do inferno astral.

Sai pra lá, ô coisa-ruim.

Um “Yes coletivo” para Obama

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No meu grupo de amigas, sempre que desejamos enfatizar aprovação sobre alguma coisa, uma de nós costuma dizer:

- Isso merece um “Yes coletivo”.

E, imediatamente, o restante do grupo responde em coro:

-Y- eeeeeeeeeeeees!!!

Tudo bem. Admito que, para quem está de fora deste ritual de comemoração, ele pareça extremamente ridículo, infantil e tudo mais. Mas a discussão não é essa. Quero falar de uma coisa séria.

Confesso que estava considerando demasiada a expectativa e a cobertura que a mídia vinha fazendo sobre o governo de Barack Obama – em partes ainda acho meio fútil ficarem fazendo matéria sobre o vestido que a primeira-dama americana usaria na posse.

Contudo, a verdade é que fiquei muito, mas muito satisfeita mesmo com a primeira lei que o presidente americano aprovou sobre a igualdade de salários entre homens e mulheres nos EUA. Nada mais justo. Agora posso dizer que Obama conquistou o meu respeito.

A igualdade salarial não é uma questão de feminismo, mas de justiça familiar, disse o presidente. Segundo ele,  a discriminação salarial faz com que as famílias tenham menos dinheiro para educação, saúde ou para sua própria aposentadoria.

Sendo assim, não só mulheres, mas homens, crianças, idosos, papagaios… Enfim, o mundo inteiro deve torcer para que isso vire lei em outros países também. E claro, fazer um “yes coletivo” para Obama.

Confira os detalhes sobre a assinatura da lei de Igualdade Salarial:http://noticias.terra.com.br/interna/0,,OI3480443-EI188,00-Obama+assina+lei+sobre+igualdade+salarial+nos+EUA.html

Ninguém merece I

Tenho me sentido o verdadeiro muro das lamentações, nos últimos tempos. Estou de saco cheio de atender ao telefone. Cansada de resolver os problemas dos outros o dia inteiro. As pessoas ligam para perguntar as coisas mais estúpidas do mundo.

 

Estou desde sábado esperando o moço vir entregar a bombona d’água que deixei paga. E o pior é que nem posso considerar “problema” o fato de não ter como passar lá, em horário comercial, pra reclamar. E isso é o de menos importante agora.

 

Gostaria de ter um número de telefone para ligar e resolver os meus próprios problemas.

 

Por hoje é só.

Marley no cinema

marley03“Um cão não precisa de carros modernos, palacetes ou roupas de grife. Símbolos de status não significam nada para ele. Um pedaço de madeira encontrado na praia serve. Um cão não julga os outros por sua cor, credo ou classe, mas por quem são por dentro. Um cão não se importa se você é rico ou pobre, educado ou analfabeto, inteligente ou burro. Se você lhe der seu coração, ele lhe dará o dele. É realmente muito simples, mas, mesmo assim, nós humanos, tão mais sábios e sofisticados, sempre tivemos problemas para descobrir o que realmente importa ou não…” - John Grogan                                                           

 

Eu mal pude esperar para ver na telona a linda história da família Grogan, que emocionou pessoas do mundo inteiro através do livro Marley e Eu. Chorei de rir ao longo das páginas. E chorei de chorar mesmo, no final. É claro que não poderia ser muito diferente no cinema.

 

Ontem fui ao cinema com meu namorado, para assistir o filme do apaixonante labrador amarelo. Lamento que o longa-metragem, em partes, não tenha sido fiel a verdadeira história. Dizem que no mundo do cinema, as adaptações são fundamentais para garantir o sucesso das bilheterias. É uma pena que seja assim.

 

Senti vontade de levantar e chamar o ator de mentiroso, quando ele afirmou nunca ter tido um cachorro antes de Marley. Fala sério? E o que dizer da tradição Grogan de escolher o melhor cão da ninhada? E a entrada triunfal do pai de Marley? E a parte em que ele fez um filme? Sinceramente, não posso acreditar que as pessoas que leram o livro tenham aprovado as mudanças.

 

No cinema vi muita gente de olhos vermelhos e inchados pelas lágrimas que o “pior cão do mundo” proporcionou. Risos incontidos. Lágrimas puras. Comoção sincera.

Todos, em algum momento da história, devem ter lembrado-se do seu cachorrinho de infância, assim como eu lembrei da minha poodle/pequinês/vira-lata e suas travessuras caninas. Independente da idade, John Grogan conseguiu despertar a criança perdida em cada um que acompanhou a biografia de Marley ao lado daquela família.

 

A todos que, por algum motivo, ainda não leram a obra do jornalista John Grogan, esse lírico contador de histórias, sugiro que o façam. Leiam o livro Marley e Eu  antes de assistir ao filme. Pronto. Falei.

 

Sobre a estréia do filme:http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5i4SBilJakGaKvRx8qocRpg_Q7oCg

Longe de casa, há mais de uma semana

transitoEu não estava acostumada a ter de esperar o sinal fechar, para só então atravessar a rua. Eu me sentia tão pequena diante de todos os prédios, diante do movimento dos carros na ruas, de tantos rostos estranhos andando pelas calçadas.

Nada me era familiar por aqui. Eu não conhecia nenhum daqueles bairros descritos nos destinatários dos ônibus. Bambuzal. Costa Cavalcante. Cordeiros. Pedra de Amolar – onde será que fica isso?!?

Na despedida do meu último programa na rádio, sucumbi ao choro. Na saída de casa, dei um beijo no irmãozinho que ficou dormindo. A mãe ficou choramingando baixinho no portão. O namorado ficou encostado ao muro. Ele estava calado. O pai deu as recomendações. Pediu para telefonar diariamente. E para que não hesitasse em voltar para casa, caso as coisas não saíssem do jeito que  eu esperava.

Na mochila vieram somente peças de verão. O taxista sorriu quandocachorro viu o bicho de pelúcia junto da pequena bagagem:

- Ela trouxe até o “ursinho” com ela.

Aquele comentário, de repente, fez eu me sentir tão ridiculamente infantil. Mas a verdade é que o homem não sabia que o “ursinho”, que na verdade tratava-se de um cachorrinho,  tinha sido presente do namorado no último natal. Ele também não reparou que o bichinho trazia um perfume especial. E sequer imaginou que dormi sentindo aquele cheirinho enquanto  ele durou.

Como meu pai já alertara, as coisas não saíram como eu esperava. Foram muito melhores e, ao mesmo tempo, muito piores. Minha vida deu um giro de 180 graus. Num lugar de iguais, foi bem difícil ser autêntica, ser o que sempre pude ser. Vi meus modos provincianos serem condenados. Mas foi aqui que eu conheci um mundo novo.

mala_de_viagem_023Aqui me tornei mulher. Aqui ‘aprendi’ a cozinhar e a cuidar de mim mesma; Mentir que estava bem e, às vezes, até fingir que estava mal. Ganhei peso. Perdi cabelo. Ganhei amigos. Arranjei – quem diria? – até inimigos. Morei só. Dividi apartamento. Chorei de tristreza. Me apaixonei. Tomei o primeiro porre. Conheci lugares lindos. Peguei praia, balada e até enchente – quem poderia acreditar que viria da Terrra das Enxurradas para encontrar enchente justo aqui???

Passados três anos que estou longe de casa, é estranho ver como o tempo passou depressa. Os prédios parecem menores agora, a cidade parece ter diminuído de tamanho. Os amigos se multiplicaram. A saudade também. Sim, aqui eu vivi verdadeiras Emoções. E é por essa e tantas outras razões que não me canso de cantar:

"(...)
São tantos momentos 
Que eu não me esqueci
Detalhes de uma vida
Histórias que eu contei aqui...

Amigos eu ganhei
Saudades eu senti partindo
E as vezes eu deixei 
Você me ver chorar sorrindo...

Sei tudo o que o amor
É capaz de me dar 
Eu sei já sofri
Mas não deixo de amar

Se chorei ou se sofri
O importante é que emoções eu vivi"

Composição: Roberto e Erasmo Carlos 

Começar de novo

Há alguns anos, numa grande enchente na Argentina um anônimo escreveu isto:

 

COMEÇAR DE NOVO

 

Eu tinha medo da escuridão

Até que as noites se fizeram longas e sem luz

Eu não resistia ao frio facilmente

Até passar a noite molhado numa laje

Eu tinha medo dos mortos

Até ter que dormir num cemitério

Eu tinha rejeição por quem era de Buenos Aires

Até que me deram abrigo e alimento

Eu tinha aversão a Judeus

Até darem remédios aos meus filhos

Eu adorava exibir a minha nova jaqueta

Até dar ela a um garoto com hipotermia

Eu escolhia cuidadosamente a minha comida

Até que tive fome

Eu desconfiava da pele escura

Até que um braço forte me tirou da água

Eu achava que tinha visto muita coisa

Até ver meu povo perambulando sem rumo pelas ruas

Eu não gostava do cachorro do meu vizinho

Até naquela noite eu o ouvir ganir até se afogar

Eu não lembrava os idosos

Até participar dos resgates

Eu não sabia cozinhar

Até ter na minha frente uma panela com arroz e crianças com fome

Eu achava que a minha casa era mais importante que as outras

Até ver todas cobertas pelas águas

Eu tinha orgulho do meu nome e sobrenome

Até a gente se tornar todos seres anônimos

Eu não ouvia rádio

Até ser ela que manteve a minha energia

Eu criticava a bagunça dos estudantes

Até que eles, às centenas, me estenderam suas mãos solidárias

Eu tinha segurança absoluta de como seriam meus próximos anos

Agora nem tanto

Eu vivia numa comunidade com uma classe política

Mas agora espero que a correnteza tenha levado embora

Eu não lembrava o nome de todos os estados

Agora guardo cada um no coração

Eu não tinha boa memória

Talvez por isso eu não lembre de todo mundo

Mas terei mesmo assim o que me resta de vida para agradecer a todos

Eu não te conhecia

Agora você é meu irmão

Tínhamos um rio

Agora somos parte dele

É de manhã, já saiu o sol e não faz tanto frio

Graças a Deus

Vamos começar de novo.

 

Anônimo

A favor do vento

Houve um tempo em que eu remei contra a maré. Houve um tempo em que me recusei a aceitar o que a vida me dava. Entendi que é mesmo difícil lutar contra o mundo. E sabe de uma coisa? Cansei disso tudo.

 

Quero parar de imaginar o que se passa na  cabeça dos outros. Não  quero mais compreender suas atitudes, nem buscar justificativas para os seus erros. Isso não muda em nada o curso das coisas mesmo. Não me interes166622b0af3bfcaf5b15d3sa mais o que Freud diria a respeito do assunto. Quero encarar e aceitar os fatos. Somente os fatos. Suposições não me servem de nada.

 

A resignação pode ser um estado de espírito interessante. Faz a gente sentir-se honesto consigo mesmo, enxergar melhor as coisas. Preciso de uma trégua. Faz tempo que eu devo isso a mim mesma. Acho que eu mereço um pouco dessa paz. Uma coisa assim meio filosofia Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar”.

 

Vou fazer as pazes entre as diversas Carina’s que existem dentro de mim.  Chega de dar murro em ponto de faca. Dizem que é bom reinventar-se. Acho que isso tudo é mesmo uma grande verdade.

 

Devo estar reaprendendo a viver. Devo estar virando gente grande. É que ultimamente tenho me sentido bem menos menina do que mulher.

Aniversário do Diário de Carina

Há cerca de um ano, surgiu a vontade de começar um blog. Sei lá, todo mundo na faculdade tinha um, por que não eu? Mas a verdade é que eu morria de medo das pessoas não gostarem de ler o que eu escrevia. Sei lá, uma coisa é escrever só pra você, outra coisa é escrever sabendo que o outro vai ler. Que seu irmão, seu primo, seu vizinho vai ler, seu ex-namorado, as namoradas do seu ex-namorado e as pessoas que não vão com a sua cara – principalmente as que não vão com a sua cara.

E se alguém rir? E se tudo o que eu escrever for uma grande porcaria? Hesitei durante semanas. Passei pelo Blogspot. Desisti. Apaguei. Recomecei. E aqui estou há exatamente um ano.

Quando publiquei o primeiro post, intitulado “Desculpe, eu tenho um Blog” http://diariodecarina.wordpress.com/?s=desculpe+eu+tenho+um+blog só falei para algumas amigas. E por muito tempo Diário de Carina esteve lá, escondidinho. Levei um tempinho para divulgá-lo por aí. Talvez isso explique o número não tão alto de visitantes: 9.773 até agora.

Não posso dizer que a postagem mais visitada esteja entre os meus melhores textos, mas se quiser conferir o link é esse: http://diariodecarina.wordpress.com/?s=um+pouco+de+futilidade+e+divers%C3%A3o

Diário de Carina. Imagino que este título para muitos soe como algo meio infanto-juvenil. Pra ser sincera, eu sou meio piegas mesmo. Meio jequinha. Mas foi o modo que encontrei de me sentir segura naquele momento. Embora eu não entendesse bulhufas de blogs, de diário eu entendia. E muito.

Escrevi o primeiro aos 12 anos. Tive inúmeros desses caderninhos. Sempre cheios de fru-frus, sublinhados de canetinha rosa e lilás, quase sempre encapados com jeans velho (que encontrava facilmente nas caixas de retalho da minha mãe), ilustrados com adesivos e com meus próprios desenhos feitos à base do lápis de cor Faber Castell. Gostava de escrever poemas e de compor músicas que nunca tive coragem de cantar pra ninguém.

Naquela época gostava de falar sobre bobagens de adolescente, principalmente sobre aquele menino da escola que eu gostei desde o primário. Tinha de driblar a curiosidade da minha mãe em saber o que eu tanto escrevia. Teve também o episódio em que meu irmão encontrou o meu companheiro secreto e ficou rindo da minha cara durante semanas. Por muito tempo o esporte favorito dele foi fazer eu me sentir uma idiota, ridícula e boba. E ele encontrou o álibi perfeito para isso:

- Carinaaaaa, sabe o que eu li estes dias sobre o…. Como é que é mesmo o nome ele? Ah, o….

- Cala a boca!!! É mentira!!! Ai que sacooooo! Porque você fica mexendo nas minhas coisas!?!

Ele se divertia às custas de meus ataques de histeria. Mas tirando isso, até os dezoito anos eu fui muito feliz naquele mundinho só meu – sim até os DEZOITO!!! Mas, aos poucos, fui parando de escrever no meu caderninho. Olhava para ele, escondidinho lá no fundo da minha gaveta de meias, já não tinha vontade de anotar. Um dia, quando dei por mim, escrever já havia deixado de ser um hábito.

O blog, que a princípio surgiu como uma curiosidade, acabou tornando-se algo apaixonante depois de um tempo. E após um ano, posso dizer que tornou-se um vício. Não vivo mais sem ele. Apesar de escrever um monte de asneiras, ainda tem gente que lê e gosta. Vá entender!!!! É como dizem lá na minha terra: “Tem louco pra tudo!”

Festa de família

Havia dezenas de netos. Bisnetos, nem se fala. A noite de sábado estava bastante fria, mas mesmo assim a família Carboni estava quase toda lá. Dos quatorze filhos, só faltou tio Osmar (falecido há pouco tempo). O aniversariante já não reconhece a todos, embora sejam descendentes seus.

Mas por algum motivo estranho, aos 95 anos, continua a lembrar do meu nome. O fato de ele recordar de mim, mesmo tendo crescido distante e morar fora há mais de dois anos, me deixa comovida. Confesso.

- Carina, tu veio! 

Olha para um parente ao lado. Ri e repete o de sempre:

 - Essa minha neta é muito engraçadinha.

Após as homenagens, a sessão de fotografias tem início. Tira foto com todo mundo, não reclama.  Fica de pé por horas e não o vejo queixar-se de dor nas pernas, nas costas, em lugar nenhum. Muito pelo contrário, está super animado. 

No momento em que nos posicionamos frente as câmeras, percebo-o movimentando os quadris e os joelhos, exatamente  no ritmo do vanerão que já embala a festa e que também o levará a pista, momentos depois – agora já sei de quem herdei meu pique para as baladas.

Levo horas pra poder cumprimentar os familiares, mesmo assim não consigo falar com todos. Pra variar, as tias querem saber do namorado bonitão – que dizem ter visto a foto “recentemente” no orkut. Felizmente os tios não fizeram aquela pergunta, chata e sem graça, sobre quando pretendo me casar. Sem ter apresentado nenhum namorado à família, aos 22, já devem estar achando que vou benzer tormenta.

A maioria quer saber sobre a faculdade, o que é bem natural, já que da última vez em que os vi ainda cursava o ensino médio. Encontro duas primas vestidas iguaizinhas a mim – yes, um viva à sociedade de massa!- e fazemos questão de registrar isso. Com o primo eu mato um pouco da vontade de dançar música gaúcha – embora tenha faltado um chamamé figurado.

Foi muito bom rever a família reunida após tanto tempo. Não sei se isso vai acontecer novamente, mas dizem que no dia seguinte, o nono já falou sobre o seu centenário, em 2013. Pode ser que isso não aconteça, mas uma coisa é certa. O segredo da longevidade de sua vida é justamente o fato de acreditar no futuro, reprojetar suas metas, ter esperanças.

Meu avô é mesmo um grande sábio, sabe como levar a vida. De qualquer modo, suas lições serão eternas.

 

Luís Rockinbach Carboni e sua prole

Juventude, amores e conflitos

 

Já parou pra pensar em como o amor da vida real é diferente dos amores vistos nas telas dos cinemas? Se analisar um pouco melhor irá perceber que, inconscientemente, você sempre esperou encontrar o mocinho dos romances, os príncipes dos contos de fadas, os amores perfeitos apresentados nas novelas. E nem precisa esforçar-se muito para lembrar-se das decepções que encontrou pelo caminho. Claro, o amor apresenta-se de forma bem diferente na vida real.

 

Os heróis dos contos que você lia na infância, matavam dragões e escalavam castelos para salvar suas donzelas. Ao contrário de tudo isso, o que encontra hoje são meninos que, muitas vezes, precisarão da sua proteção e do seu colo. São garotos perdidos entre os mil caminhos que lhe são oferecidos nessa fase da vida, divididos entre você e essas mil possibilidades. Também é normal encontrar mulheres satisfeitas por terem sua foto no orkut do namorado, plenamente realizadas por ver o status dele definido como “namorando”. É tudo meio confuso, o amor da vida real mostra-se bem diferente mesmo do que você esperava que fosse.

 

O que você precisa entender é que mesmo diferente, o amor existe. Só que na juventude, principalmente, ele vive tumultuado por milhões de dúvidas. Nunca se apresenta pleno e convicto como deveria. Você sente saudades da privacidade da vida de solteiro, não tem total certeza se conseguirá conciliar sua vida profissional e seu relacionamento, tem medo de não ter escolhido a pessoa certa. É preciso estar consciente de que sentirá falta da convivência natural com os amigos, estar preparado para ficar incomodado ao vê-los comentar das baladas do fim de semana que você não foi. O mais desconcertante de tudo é o medo de arrepender-se depois. E você terá de lidar com ele o tempo inteiro.

 

A vida de aventura, farra e diversão é muito atraente nessa fase da vida, e como se não fosse o bastante, sempre existe o conselheiro que lhe diz para aproveitar a mocidade e deixar os compromissos para depois. E é claro que ele não considera o principal de todos os seus compromissos, o compromisso com a própria felicidade. E muitas vezes, confuso diante de tantas emoções, você sacrifica aquilo que te faz verdadeiramente bem para seguir o caminho que lhe parece mais fácil. E isso é realmente uma pena.

 

 

 

O Que Eu Também Não Entendo

Composição: Fernanda Mello e Rogério Flausino

Essa não é mais uma carta de amor
São pensamentos soltos
Traduzidos em palavras
Pra que você possa entender
O que eu também não entendo…

Amar não é ter que ter
Sempre certeza
É aceitar que ninguém
É perfeito pra ninguém
É poder ser você mesmo
E não precisar fingir
É tentar esquecer
E não conseguir fugir, fugir…

 

Já pensei em te largar
Já olhei tantas vezes pro lado
Mas quando penso em alguém
É por você que fecho os olhos
Sei que nunca fui perfeito
Mas com você eu posso ser
Até eu mesmo
Que você vai entender…

 

Posso brincar de descobrir
Desenho em nuvens
Posso contar meus pesadelos
E até minhas coisas fúteis
Posso tirar a tua roupa
Posso fazer o que eu quiser
Posso perder o juízo
Mas com você
Eu tô tranquilo, tranquilo…

 

Agora o que vamos fazer
Eu também não sei
Afinal, será que amar
É mesmo tudo?
Se isso não é amor
O que mais pode ser?
Tô aprendendo também… 

Um pouco de futilidade e diversão

Nos dias que antecedem uma balada especial, nós amigas, normalmente ficamos divididas entre dois pensamentos: quem queremos encontrar por lá e a roupa que queremos vestir. E a produção é muito mais legal quando todas estamos reunidas.

 

Quando não temos um look legal, na maioria das vezes, corremos para o shopping para comprar pelo menos um assessório diferente. E se a grana estiver curta, a maioria apela para o limite do cartão de crédito.  Em caso de emergência, o guarda-roupa da outra pode ser uma solução interessante.

 

Adoramos arrasar numa calça nova, daquelas bem justinhas e que custam os olhos da cara. Na dúvida, também sabemos que o pretinho básico funciona. E como. Quando aliado a um scarpin (é assim que se escreve?) então… Funciona que é uma beleza.

 

E nessa reunião do Clube da Luluzinha é aquela falação. Mulher reunida realmente fala muito. Conversamos todas ao mesmo tempo e mesmo assim conseguimos nos entender. E nosso assunto preferido é falar dos homens cafagestes. Os casos mal resolvidos a gente enterra. É assunto estritamente proibido. Aprendemos desde cedo que “galheira”, definitivamente, não combina com o clima pré-balada. É muito mais interessante falar sobre os futuros pretendentes.

 

A produção começa com as unhas. Cores fortes. Particularmente prefiro o “gabriela/rebu” ou o “dara/café” mas tem quem goste do estilo francesinha. Tem o cabelo também, pode começar com uma escova, evoluir para um baby liss, mas costuma acabar na popular chapinha mesmo. O importante é deixar sempre solto.

 

A última etapa é a preferida de dez entre dez divas: maquiagem. É um troca-troca de sombra pra cá, de gloss pra lá. É uma pedindo pra ajudar com o delineador aqui, a outra querendo opinião sobre qual batom usar, ali. A disputa maior é por um espacinho em frente ao espelho, tão concorrido quanto vestibular pra medicina.

 

No final tudo vira bagunça. Há roupa espalhada pelo quarto inteiro. Todos os sapatos, botas e sandálias estão fora das caixas. As gavetas dos armários estão escancaradas. A música alta já invadiu todos os cômodos da casa/apartamento. Quando rola esquenta em casa então… A cozinha fica daquele jeito.O liquidificador com vestígios de batida, latas de leite condensado abertas sobre a pia, garrafa de vodka e copos na mesa. Mas deixa pra lá, no outro dia a gente dá jeito no estrago.

 

Quando não tem esquenta em casa, no caminho o carro pára no posto. A procura maior ainda é por Smirnoff Ice, já foi o tempo do Martine Rose. O som do carro toca pagode. E a gente segue cantando pelo caminho: “A mulherada dominou geral oôoô… Rapaziada tá passando mal aáaá… Não adianta querer reprimir oôoô… A mulherada é que manda aqui…”.

 

Duro é estacionar. Parece levar horas para surgir uma vaga livre. Antes da descida triunfal, retocar o batom e escovar o cabelo é básico. E se está frio, sempre surge a dúvida de levar ou não casaco. Mas no final o agasalho sempre acaba ficando no carro. Diva que é diva não sente frio.

 

E lá vamos nós. Lindas, simpáticas, livres e desimpedidas para curtir mais uma balada. E por lá, só Deus sabe o que pode acontecer. Isso é assunto para o remember do dia seguinte.

Essas Mulheres…

Poema de Mulher

Que mulher nunca teve  um sutiã meio furado, um primo meio tarado, ou um amigo meio veado? 

Que mulher nunca tomou um fora de querer sumir, 

um porre de cair ou um Lexotan para dormir?  

 

Que mulher nunca sonhou com a sogra morta, estendida,

em ser muito feliz na vida ou com uma lipo na barriga?  

 

Que mulher nunca pensou em dar fim numa panela,

jogar os filhos pela janela ou que a culpa era toda dela?  

 

Que mulher nunca penou  para ter a perna depilada,

para aturar uma empregada ou para trabalhar menstruada?  

 

Que mulher nunca comeu uma caixa de Bis, por ansiedade,

uma alface, no almoço, por vaidade ou, um canalha por saudade?  

 

Que mulher nunca apertou o pé no sapato para caber,

a barriga para emagrecer ou um ursinho para não enlouquecer?  

 

Que mulher nunca jurou que não estava ao telefone,

que não pensa em silicone ou que “dele” não lembra nem o nome?  

 

 

 

- Atire a primeira pedra a mulher que não se identificou com pelo menos uma destas atitudes. 

 


Enquanto isso a vida segue…

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Gabriel García Márquez

"A ética não é uma condição ocasional no jornalismo, mas deve acompanhá-lo sempre, como o zumbido acompanha a abelha."

Carina por ela mesma

Brasileira. Catarinense, mas quase gaúcha. Filha da dona Rozalina e do seu Alírio. Praiagrandense e acolhida pela maravilhosa cidade de Itajaí/SC. Neta da dona Floripa e do nono Carboni. Aspirante a jornalista. Namorada do Cleber. Cantora de chuveiro. Ex-coroinha. Prima do Alain. Colega da Luana Lemke. Blogueira. Egressa do Bulcão Viana.

Foi um desastre nas aulas práticas de educação física, mas tirou boas notas em redação durante o ginásio e o colegial. Desde o berço o seu lance é comunicação, dizem que aprendeu a tagarelar antes mesmo de dar os primeiros passos. Em 86 encantou fiéis com assovios durante as missas. Em 99 devorava três livros por semana e era fã de Sandy e Júnior. Locutora de Rádio entre 2002 e início de 2006. Cursou Letras na Unisul em 2005. Logo depois, ao sair de casa para morar 400 km distantes da terrinha natal, também viria a tornar-se escrava do lar.

Rói as unhas quando está nervosa. Vai tirar o aparelho (dos dentes) só no ano que vem. Gosta de café com leite, mas com mais café do que leite. Tem saudades de casa, mas viaja pouco porque odeia andar de ônibus. Gosta de dançar e de comer leite condensado de colher. Tem 23, mas parece ter menos. Ouve Marisa Monte pra ficar em paz e faz faxina todos os sábados.

Dica: Se não gosta de pimenta, alho e cebola, não prove do seu tempero.

Vai ser jornalista mas hard news não é a sua praia. Ainda não tem carteira de habilitação. Gosta de maquiagem e literatura, mas entre ser bonita ou inteligente, fica-com-a-inteligência-obrigada. Adora receber comentários neste blog e ver o índice de visitantes crescerem a cada dia. Pode ser que ela esteja no caminho certo, mas ela sabe que somente o tempo é quem vai dizer.

Essa é a versão da Srta. Carina Carboni by ela mesma. Sinta-se a vontade para ter a sua.

Luiz Fernando Veríssimo

"A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo?"

Sobre a isenção jornalística

"A isenção é como a felicidade. Em termos absolutos e permanentes, é inalcançável, mas nem por isso deixamos de correr atrás dela.

A felicidade e a isenção estão onde nunca poemos os pés. Mas por que parar de caminhar se a caminhada nos faz bem e nos torna pessoas melhores?"

- Franklin Martins

Todo mundo Lê o Diário

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