

Minha vó foi a pessoa mais anti-tecnologia que eu já conheci. Na casa dela não havia eletricidade, portanto, nada de televisão e geladeira. Havia um rádio AM da década de 50 movido a pilha. Ele ficava sobre a mesa da cozinha, encostado a parede. Era sua única fonte de informação.
A noite, as velas iluminavam o ambiente e tudo ganhava um tom de mistério. As coisas ganhavam outra forma, os móveis se ampliavam. Ainda me lembro de como aquilo tudo era aterrorizante na minha infância. Não gostava de dormir lá. Mas os dias eram deliciosos.
Ainda lembro do cantar das cigarras nas quentes tardes de dezembro. As galinhas e os pintinhos circulando livremente pelo quintal. Os imensos pés de roseira sem poda, o abacateiro e o curioso pé de chuchu. A goiabeira torta, onde gostava de me pendurar. As coloridas hortências eram de encher os olhos. Brancas, rosas, axuis e lilases.
Havia sempre uma caixa de lenha embaixo da janela. Eram cortadas por ela mesma no entardecer. Sobre a mesa ao lado, gigantes bacias e baldes de alumínio. Os antigos armários com portas de vidro guardavam fotografias minhas, dos meus primos e irmãos. O sofá da sala era vermelho e antigo, como todo o restante da mobília. Ao lado da porta também havia a máquina de costura deixada por minha tia.
Vejo minha mãe e eu sentadas na cozinha, toalha verde quadriculada sobre a mesa. De vez em quando uma mosca surgia a procura de algum farelo de broa de polvilho. Ah… As broas de polvilho… Nunca mais comi uma dessas… Minha vó as assava no fogão à lenha. A fôrma feita de lata era revestida com folha de bananeira. Batata doce cozida, bolo de fubá bem amarelinho e as famosas e temidas rosquinhas salgadas de polvilho. Ninguém aprendeu o segredo de fritar as rosquinhas estouradeiras. Sabores que jamais teremos o prazer de degustar novamente.
Ela era inteligente. Lia e escrevia. Costumava chamar-me de “Negrinha” e fazia contas de cabeça como ninguém. Alfabetizou algumas pessoas, mas não quis ser professora. Fugia do convencional. Ela não sabia fazer tricô, nem freqüentava grupos de terceira idade. Muito raramente saía de casa, mas sempre fez questão de comparecer à missa de Ramos. Alta e esguia, quase não tinha cabelos brancos. Gostava de vestido de malha. Usava um imenso chapéu de palha quando saia à rua, para proteger-se do sol. O cabelo sempre preso com pequenas tranças escondidas por um lencinho preto. Assim como eu, também usava óculos de armação preta. Porém maiores. Era bonita, mas quase não tinha vaidade.
Minha vó viveu sozinha por 24 anos, desde que meu avô partiu desta pra melhor. E sua vida sempre foi assim, sem conforto algum. Não, ela não era pobre ao ponto de não ter acesso a uma vida menos trabalhosa. Pelo contrário, vivia assim porque queria. Foi sua opção de vida. Gostava de acordar cedo e tirar leite da vaca, capinar o milho, escolher feijão, mandar o arroz para descascar. Buscar água de balde na nascente, moer o café nascido no terreiro, filtrá-lo no coador de pano. Essas eram algumas das suas práticas diárias.
Ninguém compreendia o porquê de tamanha resignação na sua forma de vida, mas mesmo assim respeitavam. Hoje entendo que foi tudo aquilo que a fez viver até os 84 anos com tamanha vitalidade. A vida no campo, respirar ar fresco, trabalhar na lavoura, cultivar os próprios alimentos. Essa era a sua fonte de saúde. Os apelos do consumo não a atingiam. Vivia cada dia de uma vez e estava protegida contra os males do mundo e as tragédias anunciadas pelos noticiários.
Sinto orgulho e saudades da minha vó. E isto é tudo.
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