A mulher surgiu do nada e tomou minha mão. Disse que eu teria vida longa, conduziu-me para um lado da calçada e perguntou se eu gostava do loiro ou do moreno. Achei graça daquilo – sei lá, pareceu que ela me confundiu com alguma adolescente dividida entre dois garotos da escola – e ela, então, tratou de elogiar minha simpatia.
Foi a curiosidade que me fez seguir adiante com aquilo. As histórias mirabolantes contadas por meu pai bastariam para eu ter dado meia volta e me afastado daquela mulher. Mas, repito, minha curiosidade venceu o meu senso de ridículo. Eu queria ver aonde aquilo iria dar. E vi.
Assim como os hare krishnas que abordam as pessoas pelo centro da cidade, tratou logo de avisar que não iria cobrar nada. Entregou uma pedrinha para proteger-me da inveja de uma loira que teria feito trabalho para atrasar minha vida. Depois perguntou quanto eu poderia contribuir “de coração” com aquela proteção.
- Cinco reais – achei que a curiosidade valia o dinheiro.
A mulher, então, apresentou-me a uma senhora de idade que estava sentada sobre um canteiro do jardim. Elas falaram em um idioma que não consegui identificar qual era e a velhinha pediu que eu me sentasse também. Naquela altura percebi que a situação já estava indo longe demais. E se, por acaso, algum conhecido me visse ali?
A velhinha de branco também disse que eu teria vida longa. Perguntou sobre uma dor de cabeça e uma coceira nas partes baixas, que muita gente pode ter, mas que não era o meu caso. Ela não deixou por menos.
-“Então, cuuuuida”.
Logo perguntou sobre uma cirurgia na minha família. Como eu disse que ninguém tinha feito, ela novamente preveniu.
-“Então, cuuuuida”. E câncer, alguém já morreu disso, não morreu?
Dessa vez ela até acertou, perdi uma tia querida – mas que família, afinal, não perdeu alguém desse mal? – Pude ver no rosto da velha cigana um sorriso de satisfação por finalmente ter dado uma dentro. Era o que faltava para o golpe de misericórdia. Perguntou se eu gostaria que ela desfizesse o feitiço que jogaram sobre mim, queria que pagasse umas velas para ela quebrar o mal.
Como, definitivamente, aquilo já tinha ido longe demais. Disse que não tinha mais dinheiro. Ela insistiu e foi baixando o valor. Falei que não queria, entreguei os R$5 da pedrinha e fui embora. Depois joguei a pedrinha no mar.
Não gosto de ser preconceituosa e acho bacana conhecer e respeitar as crenças e valores culturais das pessoas. Existe charlatanismo, sim, aliás, existe aos montes. Mas no meio de tudo isso é possível encontrar pessoas e histórias sensacionais. Poderia ser que eu encontrasse uma cigana misteriosa, com uma bola de cristal e revelações extraordinárias, iguaizinhas àquelas dos filmes. Seria legal.
Neste caso fiquei foi com um pouco de receio, a energia daquelas mulheres era bem estranha mesmo. O namorado riu e perguntou por que dei atenção e dinheiro para elas. Bom, é como aquela velha história sobre bruxas. Não é que eu acredite nelas, mas vai que elas existam? Melhor não arriscar.


Quiromancias enfeitiçam o coração e a imaginação das mulheres… e você nos enfeitiça com este relato tão simples mas tão cheio de vida! meu abraço, minha doce escritora. Com carinho cleberiano,
nelson antonio