Diversas demissões levam um jornalista fracassado e de poucos escrúpulos, representado por Kirk Douglas, a dirigir um pequeno jornal do Novo México. Buscando, a qualquer preço, alcançar notoriedade e retornar ao posto de repórter de um dos grandes jornais americanos, ele resolve tirar proveito de uma circunstância dramática. A Montanha dos Sete Abutres, lançado em 1951, é um clássico do jornalismo no cinema e tem a direção de Billy Wilder.
O longa metragem apresenta, em preto e branco, a notícia sendo transformada em espetáculo. O filme assinala o passo a passo deste processo desde o fato puro, um homem soterrado dentro de uma montanha (vivido por Richard Benedict), até a sua transformação em show, quando a vítima Leo Minosa vira um
misto de mártir e herói.
Exemplo simples de como a notícia pode ser explorada como uma mercadoria que, para garantir a venda, vale ser distorcida e decomposta em um grandioso espetáculo da produção jornalística.A prática do “showrnalismo” não é restrita a ficção, é na verdade um reflexo do cenário real, dos bastidores da mídia.
Não é exigido um olhar excepcionalmente atento para perceber o seu exercício no cotidiano do jornalismo. Entre tantas ocorrências, não precisa ter boa memória para recordar a forma como o caso da menina Isabella, supostamente atirada pelo pai e pela madrasta da janela de um prédio no início do ano passado, foi explorado de forma indiscriminada pela grande imprensa.
A reconstituição do caso Isabella reuniu centenas de pessoas em volta do prédio onde o crime teria ocorrido. Assim como em A Montanha dos Sete Abutres, pessoas levaram faixas de apoio à família da vítima, outros aproveitaram a multidão para ganhar dinheiro com a venda de água, doce e pipoca. A cobrança do ticket de entrada e o oferecimento de poltronas confortáveis teria transformado a tragédia de Isabella em sessão de cinema.
Assim como os abutres dirigidos por Billy Wilder, é possível
constatar que nosso jornalismo também é capaz de transformar fato em carniça, se for preciso, para garantir boas tiragens ou picos de audiência. Lamentavelmente a imprensa marrom, termo estreado pela disputa entre os jornais norte-americanos de Hearst e Pulitzer no final do século XIX, continua a imperar com toda a sua majestade em pleno século XXI.
Liderados pelo repórter inescrupuloso, o xerife e o médico da localidade, a esposa da vítima, o perito que fica frente ao resgate, o jovem jornalista e a multidão que se reúne em volta da colina representam exatamente a figura dos sete abutres. Fascinados pela tragédia, pelo poder, pela fama ou pelo próprio dinheiro, de algum modo todas as personagens optam pela exploração do fato e contribuem para a morte de Leo Minosa.
A referência ética ao longo do filme é fortemente representada pelo dono do pequeno jornal, que chega a acusar a personagem de Kirk Douglas de praticar jornalismo de baixo nível. O empregador é tratado como um perdedor e sai de cena ridicularizado por praticar o jornalismo fora de moda, o jornalismo que ainda usa cinto e suspensório.
Contudo, após provocar o triste desfecho, o desonesto repórter parece sentir remorso pelo que fez. Vencido, ele retorna ao pequeno jornal e como se estivesse simbolizando todo arquétipo de jornalismo ruim, o homem cai por terra completamente derrotado pela verdade. Felizmente sua ruína acontece sob a figura do bom, ético e virtuoso jornalismo, aquele que ainda é capaz de servir-se de cinto e suspensório.
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