Quinta-feira. Vinte e sete de novembro. Itajaí. Santa Catarina. O cenário lembra a guerra. Homens, mulheres e crianças seguem pelas ruas da cidade. Mesmo os que voltam para casa, parecem não ter direção.
Alguns estão maltrapilhos, outros apenas descalços. Eles carregam objetos, cestas básicas, vasilhames d’água e tudo o que puderam salvar de suas residências. É gritante a tristeza no olhar. Mesmo os que trazem as mãos vazias, parecem carregar um fardo nas costas.
Os policiais podem ser vistos em quase todas as esquinas. Os saques a casas, lojas e supermercados são constantes. Os caminhões do exército estão parados no sinal; o motorista tem pressa. Em todos os cantos da cidade o assunto é o mesmo. A cidade virou manchete internacional. Basta ligar a televisão, ela está lá em todos os canais. Repórteres de todos os lugares invadem a cidade em busca de flashes ao vivo.
(foto: blog do diarinho)
O som dos helicópteros pode ser ouvido por toda a região. Eles sobrevoam as áreas atingidas. O menino, impressionado, olha para o céu a sua procura. Ele se distrai e tropeça no meio fio da calçada. Ele está no abrigo instalado no campus de uma universidade.
Há voluntários ali, muitos são alunos. Eles usam crachás grandes e organizam recreações para as crianças. Mas Marcelo Dolgam, 28 anos, não estuda ali. Ele é advogado. A esposa dele Greiciane Dall’Agnol também não é estudante, é fonoaudióloga. Ambos estão no abrigo desde a segunda-feira atuando como voluntários. Nesta tarde eles cuidam da lista das vítimas e quando questionados sobre o que os motivou a serem solidários com os desabrigados, a resposta é imediata:
- Impulso. Você vê a situação e quer ajudar. Só isso.
A maior dificuldade dos voluntários, segundo Dolgam, é a falta de orientação:
- O poder público precisa se organizar, ou mesmo a própria sociedade, para criar meios de prevenção para tragédias como essa. Nós chegamos aqui, criamos a lista, colocamos as mesas e cadeiras, tudo por nossa conta.
Um cachorro vira-lata chama a atenção de quem está por ali. A estudante de fisioterapia, Alessandra Santos, lembra da fidelidade do animal durante o tempo em que esteve no abrigo:
- Ele dorme sobre a barriga do dono. E não permite que ninguém se aproxime daquele senhor – conta.
Um dos alunos do curso de gastronomia procura os responsáveis pela listagem. Quer saber o número de pessoas para a próxima refeição.
- Contando os dois ginásios, 120 pessoas – calcula a fonoaudióloga.
O número de desabrigados circulando pelo local é bem menor. É que muitos foram até suas casas para começar a limpeza e ver o que sobrou da mobília. Estas pessoas voltarão no final do dia, para comer, tomar banho e descansar.
De acordo com o coordenador responsável pelo abrigo, Fábio Luís Fernandes, neste dia foram servidas ao todo 600 refeições. Elas costumam ser divididas em café da manhã, almoço, lanche da tarde e janta.
- A comida é boa e feita com muito capricho – conta um dos voluntários.
Há pessoas de todos os tipos por ali. A maioria está sobre colchões. Algumas assistem futebol na televisão trazida de casa. Meninos jogam video-game. Ao lado esquerdo da porta principal, mulheres e homens reviram as peças de roupas espalhadas pelo chão. Estão à procura de algo que lhes sirva.
Varais de roupa são improvisados junto às paredes de tijolo-a-vista. No centro da quadra, há mesas de plástico. Sobre elas há uma bombona d’água e copos descartáveis. Cadeiras estão por toda a parte. Muitas pessoas trazem consigo sacos de lixo. Lá dentro deve ter o pouco que conseguiram tirar de suas casas.
É com bom humor e gesticulando muito, que o paulista Roberto Lima de Oliveira, conta como veio parar em Itajaí com o filho Levi, de 17 anos:
- Meu filho teria prova de vestibular no domingo, mas foi cancelada. Estávamos num hotel, na Avenida Sete de Setembro, mas com a enchente faltou água por lá. Soubemos da existência do abrigo e viemos para cá. Não podemos voltar para casa por causa das barreiras na BR 101.
Há alguns meses pai e filho estiveram em Santa Catarina pela primeira vez. Eles foram à Bombinhas e ficaram fascinados com a hospitalidade do povo. Seu Pedro diz que após os últimos acontecimentos, ele o filho puderam entender de onde vem a solidariedade daqui. Ele acredita que as mesmas tragédias que castigaram os catarinenses ao longo da história, também serviram para torná-los mais humanos.
Os versos do hino oficial de Itajaí complementam as palavras do visitante: “Povo hospitaleiro / Amigo sincero e leal / Jamais em todo o Brasil / Você terá visto outro igual”.
Reportagem de: Carina Carboni e Luana Martins
Fotos: Magru Floriano
Veja mais em: http://www.flickr.com/photos/magru-floriano



Parabéns pela matéria! É bom ler algo escrito por pessoas que vivenciam esse momento, e não somente por emissoras de TV que vão buscar a melhor imagem ou um furo de reportagem… Fica uma matéria mais humana, enriquecida de detalhes; é como se pudéssemos visualizar o que estamos lendo. É muito bom saber que estás bem!
Parabéns pelo texto.
é verdadeiro… o meu lado dessa tragédia foi de quem viveu 3 dias numa laje…a agua entro mais de um metro e pouco pode fazer pelos outros.
Um dos piores sentimentos que tive nesses últimos dias, era o de incapacidade digamos… pouco e as vzes quase nda poder fazer para amenizar o sofrimento das pessoas… e até mesmo o meu vendo a agua invadir minha garagem, minha sala, meu quarto….
bjs
Parabéns!
Ficou ótimo!
Como disseram ali em cima, bom ler isso, depois de tanto auê feito especialmente pelas emissoras de TV, que não deixaram de fazer um bom trabalho, mas em alguns momentos, acabaram exagerando…