Se existe uma coisa que detesto em minha vida é andar de ônibus. Aquela fragrância (forte!) de perfume vagabundo, criança choramingando no banco de trás, ausência de papel toalha dos banheiros – isso sem falar no característico cheiro de fritura vindo da lanchonete da rodoviária. Ai Senhor, meu estômago fica enjoado só de lembrar.
Quando eu era criança e minha mãe me botava um vestidinho novo dizendo que estávamos indo visitar a tia Maria, eu ficava histérica. Nada contra a tia Maria, mas o fato é que ela morava (ainda mora, pra ser sincera) num lugar chamado Tenente. E para chegar até o Tenente tínhamos de tomar um ônibus União/Unesul, daqueles pinga-pingas – que nos fazia comer poeira (literalmente) durante horas.
Há muito anos que não visito tia Maria, mas como desgraça pouca é bobagem, escolhi morar longe de casa. A verdade é que esta vida universitária tem me forçado a encarar este trauma infantil. Já estou acostumada a tomar chá de cadeira esperando ônibus atrasado; e tornei-me uma colecionadora de aventuras e casos de terminal rodoviário.
E como se não bastasse chamar o “Hugo” várias vezes durante a ida, na volta minha mãe me obrigava a mascar limão para espantar o e
njôo – isso ela fazia só depois de eu ter vomitado até o que eu nem lembrava ter comido.
Tenho muitos destes causos pra contar. Como o dia em que fiquei perdida às margens da BR 101, no meio do nada, às 3h30 da madrugada, com três mochilas e usando salto alto – porque-diva-que-é-diva-não-perde-a-pose. Passei o maior dos perrengues da minha vida, fiquei escondida embaixo de um viaduto até meu pai me encontrar. Tudo isso porque o simpático motorista passou um pouquinho do ponto – uns quinze quilômetros, no mínimo – que eu pedira pra descer.
Já conheci gente de todo tipo, ouvi histórias bizarras, como a do argentino que morava na Flórida e viera ao Brasil porque acabara de descobrir uma filha adolescente. Ou do médico simpático que contou-me a sua vida e ensinou que chá de macela é bom para combater enjôos – porque ele não disse isso à minha mãe há uns vinte anos?
O fato é que quando eu pensava já ter pagado todos os meus pecados, inclusive os que ainda nem cometi, me aparece outra provação inusitada do destino. Ao adentrar a rodoviária de Balneário Camboriú, lá estava meu ônibus partindo sem mim.
(Isso mesmo, o ônibus que sempre atrasa resolveu ser pontual justo no dia em que cheguei em cima da hora).
A viagem já começou estranha. Naturalmente, fui a última passageira a entrar. Lá dentro todos dormiam. Poltrona 15-16. Poltrona 17-18. Fico procurando meu lugar. Finalmente, lá está ela: Poltrona 37. E está ocupada por um senhor de idade que respira um sono profundo. Sem
coragem de acordá-lo, me ajeito na poltrona do corredor mesmo.
O veículo deixa o terminal. Não demora muito para sentir a cabeça do homem apoiar-se no meu ombro esquerdo. Alguns momentos depois a mão está sobre minha perna. Abro os olhos só para me certificar de que ele está dormindo mesmo. E é claro que ele está. Imagine se um vovô iria colocar a mão na minha cocha de propósito…
Mas acredite, ele ESTAVA!!!
Sacudo um pouco os braços na esperança de que ele acorde e vire para o outro lado. Em vão. Quanto mais o ônibus pende para a direita, mais ele se joga para o meu lado. Passo boa parte da viagem a empurrar o velho para o lado oposto.
Quando ele resolve abrir os olhos já me encontra revoltada com aquela situação. Quer puxar assunto.
- Embarcou aonde? – como se ele não soubesse.
- Balneário – logo eu, que costumo ser simpática e dar trela mesmo para estranhos, respondo ao questionário secamente.
- Está viajando pra votar ou a passeio?
- As duas coisas.
(…)
- Qual o seu nome?
- Por que quer saber??? – dessa vez resolvo olhar na cara dele.
- Por nada. Curiosidade.
- É Carla – minto.
- Tem namorado, Carla?
- Tenho – minto outra vez.
- É filha única?
- Não.
- Suas irmãs são gatinhas assim como você?
Respiro fundo. Conto até dez. O sangue sobe até a cabeça. Sinto que vou explodir e mandar aquele velho para a $%&# @#$ % +*&$%!!!
- Só tenho irmãos.
Só isso? Sim. Abri a boca para xingar. Mas saiu apenas isso. Por que eu não dei uma bifa na cara desse velho? Alguém pode me explicar por que mantive a educação com um desgraçado como ele?!?
Olho para todos os lados, nenhum lugar vago. Fico pensando em reclamar ao motorista da atitude daquele sujeitinho repugnante. Imagino o constrangimento. O ônibus estava lotado. Desisto ao pensar que todos os passageiros acabariam a par da situação. Envergonho-me de minha própria covardia.
O velho resolve se aproveitar disso e descaradamente segura na minha mão. Finalmente digo algumas coisas do tipo: “O que o Sr. está pensando? Não se enxerga, não? (…)”. Vejo uma poltrona livre do outro lado do corredor. Pego minha bolsa e mudo de lugar. Apenas isso.
O velho saiu impune. Certamente vai continuar assediando outras mulheres. Por que outras como eu preferiram calar, ao invés de denunciá-lo. Isso aconteceu comigo porque outras antes de mim também optaram pela omissão. E quando isso vai parar?
Homens como ele podem ser pedófilos, bater em mulher, coisas do tipo. É inadmissível que continuem a solta por aí. Espero que a próxima vítima tenha mais atitude do que eu, que o coloque no lugar que ele merece.
Mais uma historinha para minha coleção de causos de viagem. Às vezes tenho a impressão de que quanto mais rezo, mais assombração me aparece.
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