
Um tempo longe do lugar onde você cresceu faz com que você ande pelas ruas e desperte a atenção de estranhos. Os conhecidos te param no caminho. Querem saber como você está, se tem feito muita festa longe de casa, se ainda está namorando. Impossível não perguntarem se você não pretende voltar para lá algum dia. Você até tenta fugir dessa pergunta chata e incômoda, mas não dá. Mal sabem eles que essa pergunta vive a martelar dentro da sua cabeça.
Chegar em casa já não é mais como antigamente, você percebe que os móveis mudaram de lugar. É trágico abrir as gavetas da cômoda e encontrar roupas que não são suas. Dá um nó na garganta. Seu gatinho morreu e sua coleção de diários juvenis sumiu. É duro, mas você não tem mais o seu espaço na casa. Embora saiba que sempre poderá voltar para lá, e que a casa dos pais é o lugar onde sempre será bem recebido, seu cantinho deixou de existir.
Você joga as malas sobre a cama, já que os armários estão cheios, procura toalhas e descobre que não estão mais no lugar de costume. Sua cama foi substituída por uma nova. O guarda roupas e aquela cortina, que você amava, estão em outro quarto. As árvores do quintal estão cada vez maiores. O grande muro, aquele que ”escutou” e presenciou muitos dos seus maiores segredos, também não existe mais. O portão já não range como antes. E, neste momento, é simplesmente impossível não pensar nas vezes em que precisou saltá-los para evitar que o ruído denunciasse aos pais, o horário de chegada daquela festinha.
A pizzaria mudou de proprietário e perdeu o encanto. Não é a mesma coisa sem o seu primo por lá, parece que o vinho perdeu o sabor. A rua está diferente, há algumas casas novas, outras mudaram de cor. Você não sabe o nome dos novos vizinhos. A vista da janela do quarto está mais bonita. É engraçado, mas dá pra jurar que a serra aumentou de tamanho. Ela está mais verde do que nunca, embora você saiba que isso é pura ilusão. O céu está num azul intenso e a água do rio lembra um cristal, de tão limpinha. Você entra nela e descobre que também está mais gelada do que recordava. É então que admite que dois anos longe de casa faz muita diferença. As impressões, até então adormecidas, agora vem à tona e você compreende que sua memória não é tão boa quanto julgava.
Chega a ser cruel aceitar as mudanças que o tempo impõe. Você gostaria de poder congelar as pessoas, os lugares, o cenário que você deixou para trás. Seria muito bom saber que se quisesse voltar pra casa, algum dia, tudo estaria exatamente do jeitinho que você deixou. Infelizmente seria injusto com os outros. Admito que é de um egoísmo sem tamanho desejar que as pessoas nunca precisem ir embora, que não mudem, que não saiam em busca de uma vida melhor para si. É direito de todos. Só nos cabe aceitar que mudanças são inevitáveis e, quanto a isso, o tempo é mesmo implacável. 
Imagens da minha terrinha, Praia Grande/SC.

isso me lembra muito uma música da elis:
“o passado é uma roupa que não serve mais”